Te bato

Hoje você me pergunta por quê te bato. Antes, se levantasse a voz ou fizesse qualquer movimento de negação com a cabeça, você se indignava e corria para longos sermões sobre sua educação e para frases de efeito vindas de sua mãe. Eu continuava calado, quando você me jogava na cara todas as cachaças que eu tomava, todas as meia horas que eu passava longe de casa. Quando me pregava os botões da camisa e me surrava com ofensas descabidas, eu não contestava. Poderia até dizer que levemente sorria quando, na frente de amigos, me fazia parecer um tolo. Nunca me senti menos viril, menos capaz, sempre soube reconhecer o meu lugar. Quando te via vermelha, com as bochechas maculadas, sabia que viriam chuvas de reclamações, por um prato mal lavado, ou pelo lençol franzido. E quando você rodava? Sabia que, por mais que disfarçasse, rodava pra mim. Seu ar supremo e sua confiança invejável fazia uma oposição grotesca aos meus atributos masculinos, mas era disso que eu precisava, para me reafirmar, para me ajeitar. Antes, quando meu comentário do dia era reprimido pela olhada selvagem na novela, eu sabia que era para me calar e me polir diante do ator global, muito mais respeitável e mais másculo do que eu. E quantos outros eram mais másculos do que eu? Pouco me importava. Toda minha masculinidade eu aprendi em revistas e com histórias que minha avó contava sobre seus tempos de menina. Toda minha virilidade eu aprendi de cabeça baixa, te observando na cozinha ou com a vassoura na sala. Ser homem era somente não ser você mulher. Hoje não, hoje se cala. Hoje já não sou tão homem, já não sou tão dono. Hoje a meiota é diária e os bares são minha cama. Me desespero ao chegar em casa e te achar morta em frente à TV. Meu ego sucumbe quando me beija e diz que sentiu a minha falta. Pra que toda essa calma com os guardanapos sujos na mesa da cozinha? Por que esse silêncio e o sorriso inocente quando a toalha molhada está jogada em cima da cama? Por que não se importa quando levanto a mão e não respondo por onde andei? Hoje sou homem, muito menos homem, muito menos honra, quando te bato. Pois é, hoje te bato e você nem se desespera, nem se descabela, nem grita todos os nomes que aprendeu. Por que me desconstrói vertiginosamente? Hoje você apenas me olha e me pergunta por quê te bato.

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2 respostas para “Te bato

eu li e...

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