Por enquanto

Esse texto vem direto de uma proposta do professor Gilvan da Oficina. A proposta foi feita depois de lermos uma carta de Caio Fernando Abreu a José Márcio Penido (lemos até a “Pausa”). O professor nos propôs que construíssemos um texto de/sobre um escritor no processo/momento de criação, mas um escritor com a mesma concepção de criação descrita por Caio. Imaginei uma escritora num êxtase total de entregar-se a uma entidade da escrita, completamente entregue a um homem inalcançável por talvez imaginário, ou algo assim. Meu texto é este:

***

O desafio não é o papel em branco. O desafio são os suores já fazendo marcas nas pernas das calças.

“Maldito! Maldito seja! Bento é o desejo, bento é o amor. Maldito o desejado”.

Muito nietzschiano.

“Maldito! Maldito seja!”

Sim, maldição. Se o soubesse católico, de alguma maneira cristão, esse seria seu pior adjetivo. Mas ele é marxista. Como escrever “marxista” num poema sem que ele seja profundamente político?

O grafite rabisca as iniciais. Várias. Cinco. Quantos nomes tem esse homem e nenhum deles me dá um sinônimo pra continuar.

O papel não é mais branco que a ausência de um discurso ou uma resposta. Homem maldito, que não me deu saída! Cinco iniciais que não me mostram palavras. São iniciais, um título, e só.

Oh, método catártico! “Maldito, maldito seja!” Eu e minhas injunções.

O desafio do papel em branco, menos branco depois do vômito provocado, a náusea manifestada mais que na boca do estômago.

Uma náusea de viver, uma preguiça de existir num mundo e numa língua na qual eu não encontro sinônimo para “marxista”.

Escrevo. Mais uma vez escrevo “Bento é o desejo/ Bentos os homens sinceros/ Maldito, maldito sejas tu e tuas correntes”.

A náusea, como um rolo compressor que compacta o asfalto da minha solidão, aqui. Quero ouvir, quero ver.

“Homem, tu, que usas corretamente todas as palavras e não me escondes nada/ mostra-me agora o que escrever de ti”.

Enjoo. Enjoo de ter que remoer, cavar e revirar todos os pedaços que me destes pra conseguir vomitar num texto. Me destes pouco, maldito egoísta, e não sei não trabalhar com o que tenho. tenho pouco, me obrigas a ruminar e ressentir. Maldito sejas tu que me acorrente na necessidade do diagnóstico para tomar o antibiótico de amplo espectro. Maldito tu, seguro nas distâncias.

Bendito texto que, agora pronto, quieto, estático, perdida a vertigem e chegada a estação, toma de mim (por enquanto) o bolo do estômago e me permite (por enquanto) que eu durma.

(Por enquanto).

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Sobre G.H.

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2 respostas para “Por enquanto

eu li e...

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