Só o nada, há.

Este texto tem ficado guardado nos meus alfarrábios. Há um certo tempo, me exercitando nas veredas pessoanas, criei um heterônimo pra mim, Joana. Me acostumei a escrever como Joana sempre em forma de carta, pra encontrar a mim mesma na interlocutora. Com ela, deixo coisas de mim muito particulares, como se reservasse a ela um pedaço das depressões inevitáveis nas minhas políticas existenciais. Outras coisas de Joana são muito dela mesmo, nada de mim sairia assim profundo, assim solitário. Acho que ela seria eu sem um amor, que tenho. O texto segue, este:

Minha cara, começo te escrevendo exercitando produzir textos com parágrafos. A forma nunca foi muito minha amiga e não me visita sempre. Agora tento conservar uma foto dela na minha parede para reproduzi-la.

O que há hoje? O tédio imenso de que Bernardo Soares me falou. O tédio que não é cansaço nem mal estar. Eu chamaria ausência. De algo? De alguém? Acredito que meu tédio seja a colcha resultado desses retalhos.

O que há é o café, mais doce que eu gostaria de conceber, menos doce do que o necessário. Pra mim, que perdi a doçura nalgum canto de lavanderia, não tem bastado o açúcar, mesmo que tenha me adestrado a alimentar-me de muito pouco. Sigo assim muito magra e não sei se isso o agrada.

Há a respiração pesada de quem não lida, a crueldade da máquina de escrever e a ausência de resposta que me consome por não encerrar em si um significado definitivo. Será que ele me vê incomum e me dar uma resposta imediata seria menos que eu mereço? Ou me esqueceu como registro de algo que nem era pra ter sido? Há alternativas, mas o hábito e a história me fazem sempre escolher a pior.

Há a caneca na altura da testa, os ombros curvados, a dor muscular e o nada, como se fosse possível o nada haver. Mas a presença do não ter é mais massacrante que o peso do que eu inventei. Corta-se o ar com faca, respira-se pesado e sobrevive-se.

Conversar cara a cara? Já tentei, minha cara. Me custa caro. Hoje me sinto mais o diabo que a cruz. Ele riu, virtualmente, nada mais que um compromisso e eu e um café ruim. Ontem havia isso. Hoje há ainda menos.

A falta de respostas é infinita e, assim, não se pode ir aonde ela não exista. Talvez ele não saiba que “tu te tornas eternamente responsável por tudo aquilo que cativas”. Assumirá ele responsabilidade por mim? Ou deixará que eu me afogue na minha falta de remédio?

Meu medo é ele pensar que minha doença vai além da realidade dele, e não suportar e correr (mais). Meu medo é ele não correr e eu ter de enfrentar tudo que não é novidade que virá. Ele me esqueceria em segundos, se já não esqueceu. Ou nem precisará, já que a gente só esquece o que teve em si.

A realidade é bem esta, espero que sintas, pois não sei definir: eu sinto, ele não. Eu quero e também, ele quer e só. São como dois conjuntos que tem uma interseção pequena demais pra suportar minhas invenções. É difícil livrarmo-nos de quem admiramos. Não soube fazê-lo me admirar e, claro, tive mais tempo de coletá-lo, estudá-lo. Tive horas pra poder olhar fixamente pra ele sem que parecesse estranho. Ele era ele, eu era uma de muitas. Aí eu o construí aqui, nessa cadeira vazia, na caixa postal vazia, no café que se toma sozinha, na noite estranha em que ele dorme e eu não. No meu pensamento unilateral.

Minha cara, não pense que me casaria só porque estou queimando minhas bandeiras pensando tanto nele assim.

 Joana

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