Acordado

“Acordado” é um texto de gaveta. Sim, daqueles que fica por um bom tempo guardado, até que você lê de novo e vê que pode funcionar. No entanto, ainda é um texto incompleto. Tem que mudar uma coisa aqui e outra ali pra que ele exista de verdade. O título, por exemplo, é algo do qual ainda não gosto, só o coloquei porque achei que seria meio estranho um texto sem título aqui na sala. Mas, de qualquer forma, acho interessante colocá-lo aqui, para ser aparado e moldado aos olhos (e comentários) dos leitores. Conto, portanto, com a ajuda de vocês.

Buendía.

 ***

Sim, senhor, eu já estou acordado. E isso faz muito tempo. Bem antes de você sair de casa, eu já estava acordado. Eu ouvi o senhor abrindo a porta e passando a chave por fora. Não, eu não me levantei em momento algum. Eu continuei deitado. Eu ouvi também quando o senhor voltou. Eu continuei deitado. Eu ouvi a chuva, senhor, quando ela caiu. E o vento soprou tão forte na janela que ela ficou batendo, batendo, batendo inúmeras vezes, como se alguém quisesse entrar. Eu não deixei. Eu continuei deitado. Eu ouvi quando a senhora ligou o rádio na sala e começou a dançar, como se o senhor estivesse com ela. Eu não sei, mas acho que ela não percebeu que o senhor havia saído. Eu ouvi quando o sol nasceu e despertou as cortinas do meu quarto. Mas não as abri, eu continuei deitado. Eu estive acordado esse tempo todo, quando o leiteiro colocou o leite sobre o capacho e o gato da vizinha gorda pulou sobre a garrafa. Eu ouvi quando a senhora abriu a porta e viu o vidro quebrado e o chão melado. Eu ouvi ela dizendo aquelas palavras que o senhor sempre fica irritado quando ela diz. Eu ouvi ainda Marina chorando ofendida com os palavrões da mãe e quando a senhora a botou no colo e a fez acalmar. O senhor ainda não havia voltado, mas eu ouvi. Eu ouvi o sino da igreja tocando e a menina da esquina colocando o vestido de ir à missa. Ouvi os tamancos de madeira subindo o morro de pedras e as marias-tricoteiras passando os dedos nas contas dos terços. Eu continuei deitado. Eu ouvi quando a senhora fez o almoço e o colocou sobre a mesa, chamando as crianças para comerem. Ouvi quando ela arrastou a cadeira para o senhor se sentar e ficou ali te esperando chegar. Ouvi os talheres batendo nos pratos e a senhora lavando a louça. Eu não fui comer, eu continuei deitado. Quando a tarde vinha devagar, eu ouvi a casa silenciosa na sesta. O senhor ainda não tinha voltado, mas eu ouvi quando o carteiro deixou a carta e ela leu o seu nome. Eu ouvi quando a casa voltou a se abrir e meu quarto continuou fechado. No dia seguinte, eu ouvi sua filha arrancando as folhas do calendário. Quando o inverno chegou e nos pegou de surpresa, eu ouvi sua família sentindo muito frio e queimando umas folhas no fogão à lenha. Eu ouvi quando a noite assustou e as meninas contaram histórias na sala. Eu continuei deitado e o senhor ainda não havia chegado. Eu sabia que um dia chegaria, sem presentes e sem festa. Eu fiquei esperando, senhor, esperando o seu regresso. Não me levantei, mas também não dormi. Eu ouvi a vida passando devagar e os livros empoeirando-se sobre a estante. Eu ouvi a senhora envelhecendo e sucumbindo com aquela falta que ela não sabia que sentia. Eu ouvi seus filhos crescendo e brincando de amantes no banco do jardim. Eu ouvi, ainda deitado, o mundo girando e tomando seu lugar, do modo que era antes. E quando a casa te esqueceu e virou só pó, eu ouvi a senhora sumindo e todo mundo virando silêncio. Eu já não ouvia mais nada. Eu continuei deitado, carregado e balançado de silêncio. Até que um dia eu ouvi um ruído. Era a fechadura da porta,velha e enferrujada. Foi quando, então, eu me levantei e fui te encontrar na cozinha. Eu ouvi sua juventude ainda intacta se corar com meu olhar de espera. Ainda era cedo, tão cedo que o sol se espreguiçava sobre a mesa. Eu não ouvi o seu bom dia, apenas a pergunta se eu já acordara. Sim, senhor, eu já estou acordado. E isso faz muito tempo.

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Sobre Buendía

"Eu faço samba e amor até mais tarde e tenho muito sono de manhã" Ver todos os artigos de Buendía

3 respostas para “Acordado

  • Brunna

    E a gente sempre esta acordado, mesmo que deitado, mesmo que ninguém perceba, mesmo que ninguém se importe. Deitado, mas sabe que vale a pena? Ao menos senti isso aqui, lendo bons textos na madrugada ^^

  • mazzoniamanda

    Vai crescendo, ficando angustiante, até que, no término, fica uma sensação incômoda (como se algo ainda tivesse que ser dito, por nós).
    Uma vontade de gritar…
    Enfim, um bom texto para se ficar acordado.

  • G.H.

    ai ai ai
    a gente acha q vc esta falando com o senhor, depois acha q vc está falando sobre ele e fica triste de ver q estar deitado quase não é uma opção…
    adoro como vc faz os textos terem uma cara meio de época, mesmo qd não são visuais como esse aí.
    se ele não estava acabado, meu amigo, acho q agora está. vc parece bem acordado…
    foda!
    aplauso!

eu li e...

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