Chá de maçã

Lídia abriu o jornal pela terceira vez naquela manhã para ver se encontrava respostas. O tempo estava calmo, com poucas nuvens no céu, e batia aquela brisa que se disfarçava de gelada, quando ele chegou. Lídia amassou o jornal e o jogou num canto, disfarçando sua busca. Se levantou, arrumou as dobras da saia e o abraçou com um sorriso amarelo nos lábios.
– O que fazia, Lídia?
– Te esperava.
– Mas como sabia que eu chegaria hoje?
– Acabei de ler no jornal.
Era uma fotografia em preto e branco, com a resolução baixa, tão baixa que foi difícil de reconhecê-lo. O título ocupava quase uma página inteira: “Volta hoje à cidade o desembargador – Depois de passar três meses no exterior fechando negócios, o importante desembargador Luiz Almeida de Souza retorna às suas atividades na sua cidade natal”. Lídia leu linha por linha da reportagem. Por que ele não a havia avisado que chegaria hoje? Seria uma surpresa pra ela? Possivelmente havia mandado um telegrama, mas não se pode mais confiar nos correios ultimamente. O fato é que ele chegaria hoje.
– E desde quando você lê o jornal?
– Desde que você se foi.
Fazia três meses que ele tinha partido e nada, nenhuma nota da sua viagem. Desde a manhã seguinte de sua partida, Lídia passara a comprar o jornal da cidade, para saber se eles informavam alguma coisa sobre os negócios do desembargados, mas não. Era como se ele nunca tivesse existido naquele lugar, como se os postais estivessem mudos e os jornais cegos. Ninguém na rua comentava mais da sua existência. Nem aquelas pequenas fofocas de janela, do tipo: “E o desembargador, heim? Foi e nunca voltou. Deve ter arrumado uma saia lá no estrangeiro”. Nem isso.
– Você não deveria ler isso. Só tem bobeira. E não é direito uma moça do seu tipo ficar lendo essas coisas.
– Eu só queria saber alguma coisa sobre você.
– E eles informaram?
– Não.
– Bom. Eu pedi pra não comentarem nada mesmo. Não fica bem para um homem do meu porte ser notícia deste tipo de jornal. A gente perde um pouco da credibilidade lá fora, sabe?
Os dias escorriam e a caixa de jornais enchia, vazia. Nada do senhor naquela casa. Nem mesmo a fotografia na parede parecia falar sobre ele. Ele havia partido, era sem volta. Ela sempre soubera, ele partiria. Não sabia quando nem por que, mas sabia que iria. Na semana que precedeu a viagem, ele havia se tornado um ser monossilábico, respondendo a perguntas com grunhidos e balançares de cabeça. Sua vontade era agarrar aquele homem e o sacudir até que ele falasse. O que ela havia feito? O que foi feito deles? Mas não, ela monossilabou em conjunto e fingiu não perceber, muito menos se importar com a indiferença. Abaixou a cabeça em tom servil, com era seu costume, e continuou sua vida.
– Tem chá nessa casa?
– Sempre, o senhor sabe.
– Acho bom Lídia, saber que as coisas mantiveram-se na ordem quando de minha ausência.
O desembargador não passava um dia sem tomar seu chá de maçã. Lídia acordava cedo, bem cedo e fazia uma garrafa inteira do chá. Ninguém podia tomar, era dele e só dele. Aquele ar egoísta, não só com o chá, mas também com vários assuntos e aspectos da casa, a encantava. Seu ar dominador e homem a colocava na posição ideal para se apaixonar. E foi assim, sem perceber ela já o pertencia, como aquela garrafa de chá de maçã. Toda manhã, Lídia fazia o chá e ele a bebia, ainda deitado na sua cama. Mordia suas maçãs do rosto, virava a xícara e depois ia trabalhar.
– É maçã.
– É claro que é maçã, Lídia. Do que mais seria um chá nessa casa?
– Talvez o senhor tenha mudado um pouco seu gosto no estrangeiro.
– Há coisas que nunca mudam, menina. Minha predileção pela maçã é uma dessas coisas.
Lídia era uma macieira. Imóvel e imutável, carregando maçãs, caindo frutos pecaminosos. A senhora a chamava, assim que o desembargador saía. Lídia ia até o quarto e apalpava um pouco seu travesseiro. Estava tão doente, a coitada. Dizia ela que eram dores de amor. O desembargador era um bom homem, ela sabia, mas a havia esquecido, trancada naquele quarto, aqueles anos todos. A senhora não podia ter filhos e os dois viviam sozinhos até a chegada de Lídia. Era ela, a senhora, quem fazia e servia o chá toda manhã, arrumava a gravata do desembargador e o levava até a porta, com um beijo de bom dia e a espera pro almoço. Aconteceu, porém, de ela adoecer e ter que ficar de cama. O desembargador pouco se importou. Tornou-se homem de poucas palavras e a abandonou no quarto. Ficara um pouco transtornado pela falta do chá. Até que um dia sumiu. Voltou três meses depois com Lídia, uma jovem criada, vinda do interior, fazia chás como ninguém.
– A senhora ainda dorme. Quer que eu a acorde?
– Se ela conseguir sair daquela cama…
– É claro que consegue. Ela andou melhorando muito nesses últimos tempos.
– E perguntou por mim?
– Sempre. O senhor sabe. Ela sempre perguntava como o senhor estava, mesmo antes da sua partida.
– Já faz chá?
– Ainda não. Na verdade, não tentou. Mas ela já desce as escadas e vem tomar sol na sala. Ela fecha os olhos e eu leio as novas pra ela.
– Bom, bom.
Quando Lídia chegou, a senhora passou a viver em um outro quarto. Não tinha forças para se levantar e, se não fosse a criada, não conversaria com ninguém. Lídia sentia pena dela e acreditava que a senhora a odiava. Mas não, a senhora compreendia que agora era Lídia a pessoa do chá. Confessou à criada que seu chá já esfriara, há muito. Enquanto houvesse maçã, o senhor ficaria em casa, mas nos três meses em que a macieira do quintal ficasse sem frutos ele sairia e procuraria outras frutas em outras terras.
Lídia não conseguia compreender. A árvore vivia sempre carregada e nem dava sinais do fim da época de maçã. O que ela não entendia é que não era a falta de maçãs que fazia o desembargador ir embora, mas era o contrário. Quando ele partiu, a árvore quase secou. Não havia mais flores, nem frutos, muito menos folhas. O quintal ficou sombrio, com ar de inverno eterno. Lídia pensou em trancar-se num quarto, talvez do lado da senhora, compartilhar angústias e frustrações. A senhora não permitiu. “O que você precisa Lídia, é resposta para as suas perguntas”, “Mas eu não tenho perguntas”, “Primeiro encontre as respostas, as perguntas vêm depois, respondidas”. A criada passou, então, a procurar respostas. Quase num jogo ao contrário, passou a comprar o jornal todas as manhãs. As perguntas viriam depois, ela acreditava.
No meio dos classificados, entre anúncios de imóveis, carros semi-usados e acompanhantes de luxo, encontrou o que procurava: LOJA DE CHÁS. TODOS OS TIPOS. Desceu a senhora do quarto, a colocou na sala para tomar sol. Voltou com uma sacola cheia. Trouxe sete caixas de chá de maçã. Passaram a tomar todas as manhãs e a senhora recuperou a vermelhidão das bochechas. Não precisavam mais da macieira, muito menos das maçãs. A artificialidade das caixinhas de chá era quase imperceptível. Tinham a casa e o chá só pra elas, pouco importava que estação era.
Quando a macieira voltou a florescer, a senhora deu o aval para que Lídia contratasse o Joaquim da padaria para cortá-la. Não era mais necessária. Mesmo com algumas respostas encontradas, Lídia continuou lendo o jornal, toda manhã, antes da senhora acordar. Fazia um chá e as duas o tomavam antes das oito, antes de descer e a criada ler pra senhora as notícias da cidade.
– Então, me sirva o chá. O que espera Lídia?
– Já são quase onze, a senhora deve estar me esperando.
– Sirva meu chá e vá buscá-la, então.
Lídia levantou o bule e derramou na xícara casta e alva o chá de maçã.
Estava gelado.

Anúncios

Sobre Buendía

"Eu faço samba e amor até mais tarde e tenho muito sono de manhã" Ver todos os artigos de Buendía

Uma resposta para “Chá de maçã

  • G.H.

    “Mas não, a senhora compreendia que agora era Lídia a pessoa do chá.”
    putz grila, quanta coisa pra des-detalhar q fica denso e gelado como chá de maçã…. sem a artificialidade das “caixnhas”
    muito bom!

eu li e...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: