Mamãe, coragem

Faz três dias recebi uma carta. Esteve doente, não se agüentava mais. Reclamava da falta que eu fazia, da saudade que eu deixei e das respostas que eu nunca dei. Morria, era certo. O médico deu uma semana. Não, dessa vez não era drama, nem capricho, era verdade. Me enviou um laudo no envelope, queria me acordar.

Mãe,

Me espera que eu to voltando. As calças vão largas, precisando de um aperto, daqueles que só a senhora sabe dar. As pernas vão finas, carecendo daquele feijão na panela, que eu raspava com a ponta do dedo quando de moleque brincava na cozinha. Na cara tem uma barba grande, mas não é pra assustar. O tempo anda curto, corrido que só vendo, e me falta tempo pra fazer. Mas acredite, mãezinha, as modas aqui vão boas, e a barba vem me trazendo jeito de bacana. Avisa pro tio que é pra deixar abiu no pé. Sei que tá na época e quero uns pra colar a boca e depois ficar reclamando do lado da senhora, até que você me passe a manteiga e eu sorria amarelo, gostoso, e você aperte minha barriga e mande eu parar de ser chato. To levando um lençol daqui. Não sei se vai servir na cama, por isso, pega o meu no meu quarto e põe pra tomar ar no quintal. Prepara aquela mesa grande na varanda e deixa a rede quieta lá. Vou levando um vinho também, de uva sem caroço. Não sei se é diferente, mas o moço aqui da venda diz que é fino.

A verdade mainha, é que as coisas por aqui andaram meio apertadas. Às vezes batem na porta e eu finjo não estar. Tem um medo grande na cidade e eu não consigo mais olhar na janela. As pessoas não se cumprimentam, nem a cor dos olhos elas conhecem. O céu anda preto faz umas semanas e nem chuva vem pra molhar essa tristeza. Meu pulmão tá indo ruim, mas não é cigarro não, que eu já parei faz um tempo. Maria tá dizendo que é coisa de fumaça de carro. Maria fica, mãe, não me quer do lado mais. Vou levando um peito marcado, dentro e fora. Tem umas paixões que eu deixei aí em casa, outras vou levando anotadas no caderno. As unhas do meu pé vão grandes, mas ninguém aqui repara – não se tira o sapato, é feio. Aí vou andar descalço, e depois lavar o pé no tanque antes de entrar em casa.

Pro Toninho vou levando um peão. O vô faz melhor, mas esse daqui tem umas luzes que rodam quando a gente brinca. Andei brincando um pouco com ele, é certo. Me fazia acreditar, mãe, acreditar nessas coisas que eu andei ouvindo, sobre tudo clarear e o mundo ficar mais bonito. A cidade grande não é igual na novela. Diz pro pai pra tomar cuidado, muita gente vai mal nessas bandas. A verdade, mãe, é que já não me vejo com muito tempo. Andei tomando umas cachaças, mas não é muita coisa. Tenho andando meio mal das pernas, das costas. Prepara um travesseiro a mais na sua cama, que eu vou me deitar com você. Tenho uns abraços pra te dar.

Se o ônibus atrasar, não preocupa, eu chego.

Bati uma vez na porta. Eu abriria, mas já não me sentia mais em casa assim. Esperava que Amélia ou o vô viesse me atender, mas não. Veio ela. Branca, abatida, mal saída da cama. Não podia levantar, mas sabia que era eu. Sorriu. Não deixei que dissesse nada:

– Vim para morrer do seu lado.

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3 respostas para “Mamãe, coragem

eu li e...

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