Ao pai – um texto em construção

Mais uma vez venho aqui com um texto inacabado. Ainda acreditando que leituras alheias às minhas podem ser úteis, espero a colaboração de todos vocês. Sugestões nos comentários.

-xxx-

– Temos alguns círculos ainda a serem preenchidos.

As botas de meu pai, sujas do lado de fora da casa. O dia cinza. Chove.

Eu de bicicleta e a chuva num dia cinza. É o fim do mundo.

Eles não sabem, pai, das esquinas que eu cruzo. Eu ando em círculos e não volto pra casa. Eles não sabem dos meus demônios de plástico que eu guardava na caixa de brinquedos. Os meus medos eram roubados pelos bonequinhos de ação que dividiam o mundo entre o bem e o mal.

A foto do meu pai na parede da sala, desbotada e azul. Seu casaco azul jogado na cama e minhas mãos cansadas de tentarem entrar na manga. O fim que meus dedos não conseguiam alcançar tão perto e jogado na minha cara.

Meu pai na mesa de jantar, comendo sozinho e levantando os olhos pra mim. Eu com medo de chegar mais perto e meus demônios guardados na caixa de brinquedos. Por que nunca um abraço, pai?

A bênção paterna, o herói de domingo, o passeio de carro – imagens de livros. O pai que eu tive era o que meus colegas contavam na escola e eu inventava depois da aula, colocando meus bonecos de plástico no chão e olhando seus pés passaram rápidos do lado deles.

Do pai, só tive os pés, os dedos, o ronco no quarto, a foto na parede. A dor das brigas que nunca tive, do cavalinho nos ombros que nunca andei. A distância da estrada que meu pai percorria ele trazia para casa, e a porta do ônibus nunca foi parecida com a do meu quarto.

Os plásticos dos meus demônios derretidos e jogados ao chão, uma cera de vela. Várias velas num pedestal. Plástico, cera, e as lágrimas da mãe, que eu nunca saberei se foram verdadeiras.

A caixa de brinquedos vazia e a caixa de meu pai coberta, na sala, sem flores. Minha mãe me encarando e seus olhos me dizendo que o pai agora seria eu. O dono, a força, o homem. Eu tendo que ser o homem que você nunca me ensinou a ser. Eu sendo o homem que você nunca me ensinou a ser. Eu amando meu pai na distância. Meu pai sendo a mais longa distância que eu já o vi sendo. Meu pai, distância eterna, agora coberta de terra.

Um homem me parando e me dizendo de alguns círculos que ainda devem ser preenchidos. Eu andando em círculos e pensando no meu pai.

Meu pai na parede, azul, casaco, plástico. Sujo na porta de casa e distante.

Eles não sabem que é o fim do mundo.

E essa depressão, pai, não sou eu, nem somos nós: é apenas o fim dos anos setenta.

Anúncios

Sobre Buendía

"Eu faço samba e amor até mais tarde e tenho muito sono de manhã" Ver todos os artigos de Buendía

5 respostas para “Ao pai – um texto em construção

  • G.H.

    “e as lágrimas da mãe, que eu nunca saberei se foram verdadeiras.” vc consegue ser menos obvio… seria mais interessante

    acho q vc pode trabalhar mais a alegoria/ideia da caixa…eu sei o q vc quis com ela (e no final a caixa e o caixão fazem uma imagem foda!) mas no texto ela ficou diluida… quem sabe?

    o texto está todo muito bom, mas parece q vc escreveu ouvindo musica ou vendo televisão, porque está mas descoberto do q vc costuma escrever…ou eu q não estou boa leitora de Buendia hoje.

    na realidade, eu só mudaria aquilo q eu achasse que eu não consegui cuspir ainda. atenção ao verbo: cuspir. é esse msm.

  • Waldyr

    Gostei, Otávio. Acho que o texto todo caminha pra um mesmo efeito, o que eu acho muito bom.

    Eu corroboro com as ideias da Joyce: acho que vale a pena sugerir mais, explicitar menos. Acho que a ideia do “pai ausente” seria mais intensa se aparecesse de forma velada no início (como apenas os efeitos) para se delinear de forma mais clara perto do fim do texto. Acho, ainda, que vale a pena crescer – principalmente a parte central. Na minha opinião, ele tem força pra ser maiorzinho.

    Lembrei de “Lavoura Arcaica”, e isso é muito bom…

  • Paula Vasconcelos (@vasconcelos_p)

    Faço minhas as palavras do Waldyr “Lembrei de Lavoura Arcaica, e isso é muito bom…”.
    Momento da leiga falar…você tem textos mais elaborados, sugestivos (como disseram nos comentários; menos explicitos) e imaginativos, ande a cena é montada durante a leitura e de palavra (repetida ou não) em palavra. É possível enxergar a cena forte antes do fim, tornando menos importante do que poderia ser.
    Pronto, já corri risco de estar falando asneiras demais. Bom texto pra vc!

  • Pamella Oliveira

    Bom, eu fiquei um tempo tentando digerir o texto e vim dar os meus palpites. Ao contrário do que Joyce e Waldyr disseram, sobre sugestão e explícito, eu voto no explícito. Acho que é o diferencial no texto, falando de um assunto tenso como a infância e a ausência do pai sei, no entanto, apelar para as figuras e, assim, correr o risco de cair no clichê ou, mais comumente, no hermetismo. Explicitar é mais difícil do que criar figurar acerca do assunto, e isso é um grande passo! Adorei o texto, preciso dizer?

  • Anelise Freitas

    Otávio,

    Gostei bastante do teu texto. Textos de pais ausentes sempre me comovem deveras, pois o explicitado aí eu vivi, então ficou muito pessoal. E como no texto, meu pai também morreu. É difícil falar sobre algo em que se espelha. Entretanto eu acho que o soco no estômago é sempre bom nessa temática. Se a personagem não ficou estática e entrou de sola na vida eu voto por esse viés. E eu acho que é um texto que tem muito pra se desenvolver na entre linhas e ser mais detalhista.

    Mas é tudo empírico o que digo.

eu li e...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: