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Sobre May

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Chronos

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Até o mundo anda estranhando
As suas velozes revoluções.
Todos teimam em culpar Chronos
– Ah, que tolos!
Hermes ri-se da inocência geral.
O malandro patrono de nossa época
Iluminou um cristão incrédulo
Que, injusto,
Pensou ser sua a criação
Da tecnologia de telecomunicações.
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blahblahblah
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Isso tudo era só pra perguntar
[Já que eu disponho de todo esse aparato internético]
O mundo deu muitas voltas, e
Como você está, depois de tudo isso?
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Cárcere das Almas

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Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,
Soluçando nas trevas, entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!

 

Cruz e Souza


Do Livro do Desassossego;

69.

Chove muito, mais, sempre mais… Há como que uma coisa que vai desabar no exterior negro…

Todo o amontoado irregular e montanhoso da cidade parece-me hoje uma planície, uma planície de chuva. Por onde quer que alongue os olhos tudo é cor de chuva, negro pálido.
Tenho sensações estranhas, todas elas frias. Ora me parece que a paisagem essencial é bruma, e que as casas são a bruma que a vela.

Uma espécie de anteneurose do que serei quando já não for gela-me corpo e alma. Uma como que lembrança da minha morte futura arrepia-me de dentro. Numa névoa de intuição, sinto-me, matéria morte, caído na chuva, gemido pelo vento. E o frio do que não sentirei morte o coração actual.

[Bernardo Soares, semi-heterônimo de F. Pessoa.]


Versos de orgulho

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho ! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu Reino fica para além…
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus !
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém !

O mundo ? O que é o mundo, ó meu Amor ?
– O jardim dos meus versos todo em flor…
A seara dos teus beijos, pão bendito…

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços …
– São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.

[Florbela Espanca]