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Sobre G.H.

"É pela ponta dos dedos que se recebem os fluidos"

cega

eu conseguisse escrever com a violência daquilo que me atravessa. ..sairia um texto cheio de sangue.

que bom que adoro vermelho; se um dia der certo, sangro e não vejo.

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iminência

eu quase gosto das noites de lua de lâmpada, nas quais meu medo de ser escuro quase se confunde com minha falta de sono, meu remédio e minha dor.


se eu fosse escrever

para Anna

 

se eu fosse escrever hoje, talvez eu escreveria do meu medo. das respostas que assustam porque longe, porque perto. das que eu não controlo. escreveria do meu medo, do gargalo fechado que é minha gargante (às vezes).

se eu fosse escrever hoje talvez saísse um texto de desespero. mas alguém me garantiu, me jurou que nada ia acontecer. e eu me agarro, e eu refaço um futuro que nem sei pra ter certeza de que nada vai mesmo acontecer e pegar, finalmente, no sono.

se eu fosse escrever, talvez hoje poderia ser o dia de falar da raiva da porta onde você bateu a cara. eu falaria que portas não são mais do que portas e é possível deixá-las abertas e arejar a vida (que não tem que admitir portas fechadas a mão de ferro).

se hoje fosse dia de escrever, quem sabe não fosse o dia da minha fucking obra prima, de tão triste, de tão medo, de tão não que o blue bird in my heart sofre e engasga.

sento e tento me lembrar que ele canta, se eu deixar.

refaço mais uma vez o futuro que não sei e me certifico (pela não última vez) que nada vai mesmo acontecer. tem que existir um Deus. Ele existe.

refaço mais uma vez, meu rosto desruboriza e lembro que existe, sim, Deus e Ele tem que estar me ouvindo porque eu aprendi que Ele tem que ser justo e etc.

mas hoje eu não vou escrever nada, não.


Convite triste

Meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber, vamos ler jornal,
vamos dizer que a vida é ruim,
meu amigo, vamos sofrer.

Vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira.
Fitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
ou qualquer outra besteira.

Vamos beber uísque, vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber apenas.

Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma.

Meu amigo, vamos cantar,
vamos chorar de mansinho
e ouvir muita vitrola,
depois embriagados vamos
beber mais outros sequestros
(o olhar obsceno e a mão idiota)
depois vomitar e cair
e dormir.

[Drummond; vamos sim, meu amigo]