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O TEMPO DOS SEUS OLHOS, por Danilo Lovisi*

Entrando na sala, sem fazer muito barulho, nos chegou esse texto. Guardem os estouros dos saquinhos de pipoca e respeitem esse momento mágico. É pra ler e sentir o ar chegando nos pulmões e a vida saindo pelas narinas. E o que há dentro dos nossos noventa anos?
 
Buendía
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O que há dentro desses noventa anos que ainda capinam o mato, fresco, a secar sob o sol insistente? O que esses anos viram? O que irão contar aos presentes, inventando passados, preparando futuros? E esse coração. Esse coração de noventa anos, quantas vezes já parou? Saiba que o tempo dele não é contado pelas batidas, mas pelo intervalo entre elas. Saiba que a vida acontece ali, no entremeio, no intermédio do tempo. A vida acontece ali, suspensa, tensionada, prestes a pular, de assalto – e para sempre – ao eterno próximo segundo. E esses olhos, quanto tempo têm? Saiba que a idade deles é medida pelo tempo que ficam abertos. Não pra fora, não. Mas pra dentro. Esses pés. O tempo dos seus pés é contado pelo intervalo do passo seguinte: duvidoso, excitante. Pois à frente, à frente deles, o mundo. O mundo que, mesmo curvo, existe.

(*Danilo Lovisi é estudante de Letras pela UFJF e publica seus textos no blog Chaleira Muda)


Marcha da quarta-feira de cinzas, by Igor Werneck

Um texto sensível, visual e que mexeu muito com a sala. Abajures muitos, na minha opinião, não iluminariam suficientemente o breu emocional que paira ali. Num subjuntivo maldoso de uma resignação castigada, o texto reclama que “falta afeto”, num universo que, de tão pequeno, não tem paredes que nos acomodem. Falta afeto. Mas sobram sentimentos, sabores…

G.H.

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“Ruínas, cacos, pedaços, poeira, estilhaços.

Tudo o que restou de tantas histórias empilhadas.

Quem disse que a vida segue uma linha reta?

Que os fatos se encaixam uns nos outros como peças

de um quebra cabeça, que os astros conspiram

para nos conduzir a um bom porto no final da jornada”

Espectro de HamletAntes da Coisa Toda Começar



Hoje estaria de mudança. Todo o pouco restante seria classificado, organizado, arrumado conforme o lugar que eu resolvesse ir. Havia poucas coisas amigas. Em um desses devires, talvez fosse bacana guardar aquele quadro, aquela meia rasgada ou aquela lata de cerveja vazia que ainda sentia a última gota de calor daquele meu mundo embalado num torpor miserável.

Resolveria viajar. Acreditaria que no outro lado da rua eu encontraria a banda passando, cantando coisas de amor. O outro lado da rua sempre foi curioso, demorei tempo precioso até poder atravessá-la. Certa vez, uma parada de elefantes surgiu no asfalto quente, pouco a pouco, tromba a tromba. Tive medo da giganteza, me senti pequeno diante do animal. O céu, ceruleano, aguardava pacientemente a cena. As nuvens pareciam estar ocupadas demais pra tingir de branco. Ainda que as minhas possam ter sido negras. Eram os primeiros elefantes azuis que meus olhos escrevinhavam.

Hoje, impreterivelmente hoje, sem nenhum ontem ou amanhã pra servir de marco, conto pedaços de mim. Pedaços que perdi enquanto arrastava as malas da minha nostalgia exagerada em torno da via sacra que acreditei existir. Hoje me mudei. Mudei com e dentro do mundo. Mudei vivenciando o silêncio das vaidades de um Brasil já borrado. Sou atravessado por valores cada vez mais gastos, castos, quinhões da tecnocracia cosmopoliticamente dominante.

Queria ter chegado mais cedo, arrumado lugar, perdido o sono, mas não perdido a viagem. Já era quarta. Era melhor sentar. Essa era uma daquelas horas em que você apenas procura sentar-se. Talvez precisássemos perder mais viagens? Pensei. Encontrei um banco e fiz dele meu colega de quarto, posto que me pus a dormir ao seu lado.

Hoje estaria de mudança ao acordar. Queria mudar a letra, queria mudar a rima, mas não encontrava poesia. Queria encontrar sossego, acordar com aquela vontade de fazer algodão doce de nuvens – das negras? A calda de chocolate que faltava nesse desejo. Gostaria de ter tido a chance de colar toda a fragilidade da vida derramada do texto. De usar a palavra do outro para e com o outro, não a fim de me tornar íntimo dele.

Queria ter voado para longe daqui, pra longe desse desassossego. Queria ter visto harlequin ensinando maquiagem a Dionísio. Ter visto Elis e morrido de saudade. Apagado a fogueira da inquisição à vida. Se hoje pudesse, pintaria um quadro com todos aqueles elefantes. Faltam-me aquarelas. A cor não mais se lembra do toque do pincel, pintores não tiveram afeto para a colher. Falta afeto.

Contudo, sei que enquanto restarem pedaços de mim alastrados ao cobertor, outro corpo será capaz de se proteger no meu afeto. Viverei com as mãos à deriva, pedindo um taxi, um inferno. Queria ser capaz de fugir agora pra bem longe daqui.

 

Hoje estaria de mudança…