Arquivo da categoria: prosa poética

de maneira que

dormiu como se trabalhasse. escreveu como se comesse. chorou como se andasse. lembrou como se respirasse. sonhou como se martelasse. leu como se bocejasse. escreveu como se piscasse. chorou como se se contorcesse. saiu como se fugisse. voltou como se caísse. fugiu como se enlouquecesse. escreveu como se chorasse. chorou como se vivesse. viveu como se desejasse. desejou como se morresse.


Poética

São esses pequenos pedaços que você deixa dentro de mim depois que a gente ama que eu antropofagizo e construo uma personalidade. Não que eu não exista sem você, mas eu me moldo com suas secreções, que lançam um Aristóteles no meu útero.

Poesia não tem sexo, nem cor, nem autor, mas seus poemas todos são assinados, as primeiras páginas dos seus livros tem seu nome, e as obras que me dá nunca vem sem dedicatória. Poesia é isso que a gente faz, quando a gente se une e não tem mais homem-mulher-ativo-passivo-macho-fêmea-dominador-presa nessa coisa que é pele na pele e respirações gemidas ofegantes no pé da orelha. Poesia não tem sexo, mas a gente sim. A gente tem o sexo que fazemos pra poetar na fumaça do cigarro, pra dizer que é tudo sentimento que explode. Sentimento é orgasmo, meu amor?

“É Osváldi! Com V e acento no A”. Ele sobreviveu aos tiros-facadas-pedradas-afogamentos de Barthes e é isso que você procura hoje na minha casa. Tem medo de mim, de eu ser seu Roland, de te matar quando você for embora, por isso enche minhas estantes de você, por isso enche meus instantes de você. Medo infundável da morte, eterna busca pela eternidade. Eternos somos nós, pobres mortais, que nunca lemos os clássicos, nunca entendemos os gregos, mas continuamos pendurados na sala, na foto de casamento que o menino aponta e fala “alá vovó”. Eternos são os seus silêncios, os seus rabiscos, suas criações, seus “me deixa em paz que um poeta precisa pensar”.

Quando você vai embora, sua poesia continua aqui dentro, intacta na parede, no chão, nas fundações. É porque quando você vem você me olha assim, me pega assim, me lambe assim, me come assim… goza uma poética dentro de mim.


Base, base

fernando pessoa me encara cruelmente como quem intima em silêncio, o silêncio certo de quem sabe da própria autoridade. bernardo soares seria mais apropriado para quem, como eu, compra o pacto da heteronímia tão profundamente que nem me apetece estudá-la. metaconversa? joana do arco me escreve de mim sempre. o poema me foge, a prosa me puxa o tapete, na medida em que me releio e o impulso do dedo que escreveu é o suicídio do texto (veja que texto e dedo são os mesmos – pessoa, identidade, corpo).

da sensação térmica fica a impressão que o aperto dessa semana não deve passar com o passar dos prazos. fernando pessoa me encara, eu o encaro de volta esperando respostas que eu preciso textualizar. quando te cito, você não é homo lattes, então como colocar referências bibliográficas só com teu sobrenome?

o desespero dessa semana só fica, que é o seu próprio papel. imprima a máquina de guerra, releia a árvore do des-empenho, pendure os ternos, desligue os microfones. leia o russo, estude o português, entenda o estadunidense. em greve? eu fico aqui com as minhas pantufas ridículas digitando do jeito errado. três minutos de jornal nacional não me derretem.

grandessíssima base bem feita.


Marcha da quarta-feira de cinzas, by Igor Werneck

Um texto sensível, visual e que mexeu muito com a sala. Abajures muitos, na minha opinião, não iluminariam suficientemente o breu emocional que paira ali. Num subjuntivo maldoso de uma resignação castigada, o texto reclama que “falta afeto”, num universo que, de tão pequeno, não tem paredes que nos acomodem. Falta afeto. Mas sobram sentimentos, sabores…

G.H.

 ***

“Ruínas, cacos, pedaços, poeira, estilhaços.

Tudo o que restou de tantas histórias empilhadas.

Quem disse que a vida segue uma linha reta?

Que os fatos se encaixam uns nos outros como peças

de um quebra cabeça, que os astros conspiram

para nos conduzir a um bom porto no final da jornada”

Espectro de HamletAntes da Coisa Toda Começar



Hoje estaria de mudança. Todo o pouco restante seria classificado, organizado, arrumado conforme o lugar que eu resolvesse ir. Havia poucas coisas amigas. Em um desses devires, talvez fosse bacana guardar aquele quadro, aquela meia rasgada ou aquela lata de cerveja vazia que ainda sentia a última gota de calor daquele meu mundo embalado num torpor miserável.

Resolveria viajar. Acreditaria que no outro lado da rua eu encontraria a banda passando, cantando coisas de amor. O outro lado da rua sempre foi curioso, demorei tempo precioso até poder atravessá-la. Certa vez, uma parada de elefantes surgiu no asfalto quente, pouco a pouco, tromba a tromba. Tive medo da giganteza, me senti pequeno diante do animal. O céu, ceruleano, aguardava pacientemente a cena. As nuvens pareciam estar ocupadas demais pra tingir de branco. Ainda que as minhas possam ter sido negras. Eram os primeiros elefantes azuis que meus olhos escrevinhavam.

Hoje, impreterivelmente hoje, sem nenhum ontem ou amanhã pra servir de marco, conto pedaços de mim. Pedaços que perdi enquanto arrastava as malas da minha nostalgia exagerada em torno da via sacra que acreditei existir. Hoje me mudei. Mudei com e dentro do mundo. Mudei vivenciando o silêncio das vaidades de um Brasil já borrado. Sou atravessado por valores cada vez mais gastos, castos, quinhões da tecnocracia cosmopoliticamente dominante.

Queria ter chegado mais cedo, arrumado lugar, perdido o sono, mas não perdido a viagem. Já era quarta. Era melhor sentar. Essa era uma daquelas horas em que você apenas procura sentar-se. Talvez precisássemos perder mais viagens? Pensei. Encontrei um banco e fiz dele meu colega de quarto, posto que me pus a dormir ao seu lado.

Hoje estaria de mudança ao acordar. Queria mudar a letra, queria mudar a rima, mas não encontrava poesia. Queria encontrar sossego, acordar com aquela vontade de fazer algodão doce de nuvens – das negras? A calda de chocolate que faltava nesse desejo. Gostaria de ter tido a chance de colar toda a fragilidade da vida derramada do texto. De usar a palavra do outro para e com o outro, não a fim de me tornar íntimo dele.

Queria ter voado para longe daqui, pra longe desse desassossego. Queria ter visto harlequin ensinando maquiagem a Dionísio. Ter visto Elis e morrido de saudade. Apagado a fogueira da inquisição à vida. Se hoje pudesse, pintaria um quadro com todos aqueles elefantes. Faltam-me aquarelas. A cor não mais se lembra do toque do pincel, pintores não tiveram afeto para a colher. Falta afeto.

Contudo, sei que enquanto restarem pedaços de mim alastrados ao cobertor, outro corpo será capaz de se proteger no meu afeto. Viverei com as mãos à deriva, pedindo um taxi, um inferno. Queria ser capaz de fugir agora pra bem longe daqui.

 

Hoje estaria de mudança…