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se eu fosse escrever

para Anna

 

se eu fosse escrever hoje, talvez eu escreveria do meu medo. das respostas que assustam porque longe, porque perto. das que eu não controlo. escreveria do meu medo, do gargalo fechado que é minha gargante (às vezes).

se eu fosse escrever hoje talvez saísse um texto de desespero. mas alguém me garantiu, me jurou que nada ia acontecer. e eu me agarro, e eu refaço um futuro que nem sei pra ter certeza de que nada vai mesmo acontecer e pegar, finalmente, no sono.

se eu fosse escrever, talvez hoje poderia ser o dia de falar da raiva da porta onde você bateu a cara. eu falaria que portas não são mais do que portas e é possível deixá-las abertas e arejar a vida (que não tem que admitir portas fechadas a mão de ferro).

se hoje fosse dia de escrever, quem sabe não fosse o dia da minha fucking obra prima, de tão triste, de tão medo, de tão não que o blue bird in my heart sofre e engasga.

sento e tento me lembrar que ele canta, se eu deixar.

refaço mais uma vez o futuro que não sei e me certifico (pela não última vez) que nada vai mesmo acontecer. tem que existir um Deus. Ele existe.

refaço mais uma vez, meu rosto desruboriza e lembro que existe, sim, Deus e Ele tem que estar me ouvindo porque eu aprendi que Ele tem que ser justo e etc.

mas hoje eu não vou escrever nada, não.

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UM CONTO – edição de novembro (estamos lá!)

Este mês, mas uma delícia de UM CONTO, com nossas presenças ilustres

Dá uma olhadinha:

http://revistaumconto.wordpress.com/2011/11/03/um-conto-edicao-de-novembro/

E aproveita pra pegar a sua. Tá demais.

UMA FOLHA. UMA IDEIA. UM CONTO. ALGUMA LITERATURA.


Retratos (9)

Última parte do conto “Retratos”. Confira aqui a Parte 1, a Parte 2, a Parte 3, a Parte 4, a Parte 5 , a Parte 6 , a Parte 7 e a Parte 8.

***

Domingo:

Passei o dia na praça. Ele não apareceu. Levei os retratos comigo. Olhei-os, atentamente. São seis. O último parece um cadáver. Eles me olhavam com desprezo, os retratos. Levei a margarida. Fez calor o dia inteiro. Suei. Esqueci de fazer a barba. A tarde, a secretária passou com o namorado e me viu deitado na grama. Não me cumprimentou e cochichou qualquer coisa com o namorado. Quando já era muito tarde percebi que ele não viria. Nunca mais. Voltei devagar para casa, mas o porteiro não me deixou entrar. Mostrou-me uma circular feita pelas vizinhas dizendo coisas que não li. Vim para o bar onde estou escrevendo. Chove. Talvez ele tenha ido embora, talvez volte, talvez tenha morrido. Não sei. A minha cabeça estala. Eu não suporto mais. Espalhei os retratos em cima da mesa. Fiquei olhando. Despetalei devagar a margarida até não restar mais que o miolo granuloso. O sexto retrato é um cadáver. Acho que sei por que ele não veio. O barulho da chuva é o mesmo de seus passos esmagando folhas que não existiam.
Flor é abismo, repeti.
Flor e abismo. E de repente descobri que estou morto.

[Caio Fernando Abreu, em O Ovo Apunhalado]


Retratos (8)

Penúltima parte do conto “Retratos”. Confira aqui a Parte 1, a Parte 2, a Parte 3, a Parte 4, a Parte 5 , a Parte 6 e a Parte 7.

***

Sábado:

Acordei muito cedo e fui para a praça. Mas não consegui encontrá-lo. Tomei coragem, aproximei-me dos outros e perguntei onde ele andava. Alguns nem responderam. Outros ficaram irritados, perguntaram o nome? mas o senhor não sabe nem o nome dele? Eu fiquei com vergonha de repetir o que ele tinha dito. Não fica bem para um homem da minha idade dizer essas coisas. Ninguém sabia. Descrevi seu jeito, seu rosto, sua calça azul furada no joelho, suas mãos, aos poucos fui perdendo a vergonha e falei no seu caminhar sobre folhas, das suas mãos paradas no ar, seus olhos fixos. Ninguém sabia. Perguntei às vizinhas. Três delas me bateram com a porta na cara, resmungando coisas que não entendi. Outras duas disseram que tinham quartos para alugar, o que também não entendi. Saí a caminhar pela cidade, gastei o resto do dinheiro em cerveja, não consegui encontrá-lo. Telefonei para todas as delegacias e hospitais, fui ao necrotério. Não estava. Voltei para casa todo molhado de chuva, tossindo e espirrando. Caí na cama e dormi.

[Caio Fernando Abreu, em O Ovo Apunhalado]