Arquivo da categoria: textos que não conseguimos definir

cega

eu conseguisse escrever com a violência daquilo que me atravessa. ..sairia um texto cheio de sangue.

que bom que adoro vermelho; se um dia der certo, sangro e não vejo.


iminência

eu quase gosto das noites de lua de lâmpada, nas quais meu medo de ser escuro quase se confunde com minha falta de sono, meu remédio e minha dor.


Minha mãe

Me rendo ao clichê minha mãe dos cigarros mesmos minha mãe que minha mãe 
filtros vermelhos pulmões ofendidos minha mãe negro isqueiro presente de 
minha mãe e fumaça densa eu sou igual acendo minha mãe o cigarro e morro 
minha mãe da mesma forma minha mãe câncer devagar minha subindo e desfi-
lando mãe  d i s s o l v e n d o   e   s  e    a  c  a  b  a  n  d   o      
 m    i    n    h    a    .     .     .    .    .    .    .    .    .

coração e reticências

Estava a arrumar as coisas no armário.

Papeis de toda sorte… umas relíquias, umas fotos, umas agendas velhas.

Umberto Eco, uns comprovantes.

Meu nome escrito na capa de um monte de texto que não li, as páginas das cópias dobradas e guardadas do jeito que interrompi. Quanta coisa deixei de ler!

Num papel, seu nome. Sem notar, passei o dedo sobre ele, como se a passada do dedo o revelasse a uma primeira leitura. E quis muito que você estivesse me assistindo, arrumando papeis, que eu te contasse o que eles são, que você risse das minhas bobagens.

Teoria X-barra, umas redações.

Seu nome no papel. E me dá uma saudade bruta de você que quando passo meu dedo no escrito me recolho como que com vergonha do gesto besta.

Gestalt, Foucault, Cartas Chilenas.

Um pacote esquisito, que não me lembro de ter pegado: Torquato Neto (“difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa”), os Andrade (Oswald, Mário, Carlos – intimidade), uma carta a Georges Izambard… coisa estranha. Não me lembro desse pacote. Se pudesse apostar que um velho (do saco?) veio aqui e deixou isso, não apostaria. Velhos não ligam muito pra mim.

O ano da morte de Ricardo Reis, passagens pra Petrópolis (muitas, infinitas!), um telegrama da minha primeira comunhão.

Seu nome, meu bem, escrito. E eu jogando tanta coisa fora quando tudo que eu queria achar, não tava ali. Um coração, que você talvez tivesse desenhado pra mim. Não achei. Escondi escondido. Vai ter que ficar desenhado só na minha cabeça, suas exclamações e um coração metade coração metade reticências. Não sei o que significa… mas você desenha corações.

(quem te olha não diz, pode ficar sossegado).

Joguei muita coisa fora.

Não sei se tenho literatura nos dedos.

(saudade inconfessável de você).

(achei o coração).