Convite triste

Meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber, vamos ler jornal,
vamos dizer que a vida é ruim,
meu amigo, vamos sofrer.

Vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira.
Fitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
ou qualquer outra besteira.

Vamos beber uísque, vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber apenas.

Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma.

Meu amigo, vamos cantar,
vamos chorar de mansinho
e ouvir muita vitrola,
depois embriagados vamos
beber mais outros sequestros
(o olhar obsceno e a mão idiota)
depois vomitar e cair
e dormir.

[Drummond; vamos sim, meu amigo]


Chronos

.
.
.
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Até o mundo anda estranhando
As suas velozes revoluções.
Todos teimam em culpar Chronos
– Ah, que tolos!
Hermes ri-se da inocência geral.
O malandro patrono de nossa época
Iluminou um cristão incrédulo
Que, injusto,
Pensou ser sua a criação
Da tecnologia de telecomunicações.
.
blahblahblah
.
Isso tudo era só pra perguntar
[Já que eu disponho de todo esse aparato internético]
O mundo deu muitas voltas, e
Como você está, depois de tudo isso?
.
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.
.

de maneira que

dormiu como se trabalhasse. escreveu como se comesse. chorou como se andasse. lembrou como se respirasse. sonhou como se martelasse. leu como se bocejasse. escreveu como se piscasse. chorou como se se contorcesse. saiu como se fugisse. voltou como se caísse. fugiu como se enlouquecesse. escreveu como se chorasse. chorou como se vivesse. viveu como se desejasse. desejou como se morresse.


Receita de ano novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

[Drummond… feliz ano novo!]